Embolia.

Ontem, desejei que o sangue dele invadisse o meu corpo,
só pra percorrer minhas veias,
só pra residir em mim,
só pra atravessar minhas avenidas cheias,
só por me invadir.

"Catarse"

Nunca imaginei esse dia. Pensei que ele viria como pesadelos, logo estaria acordada e era só lembrar da realidade. Não seria assim.
Isso - seja lá o que eu queira dizer com "isso", seja lá o que "isso" for - contraria a lógica universal.
Se eu pudesse me descrever, sendo cada vez mais egoísta - como devo ser pra você - lhe diria que o meu sorriso foi tão aberto quanto o meu coração. O fel das minhas palavras soou como o aço que revestia meus sentimentos. Diria-lhe que não sei se fui.
Fui mais do que deveria, acho. Fui menos do que pude, sei.
Meu erro foi acreditar ser menos, meu erro foi acreditar ser mais. Meu  erro foi não acreditar, meu erro foi acreditar.
Tanto pensei e repensei no que lhe fiz que nem sei em que pensei.
Via a minha história com a sua comungar...
Hoje, lhe garanto que minhas palavras só cortam a minha garganta, meu sorriso está trancado e meus sentimentos, certamente, ocupam o barraco de zinco que é o meu coração. Nesse barraco, vou deixar escondidas aquelas gargalhadas, aquelas conversas fora de hora, aquelas horas jogadas fora, aquelas vontades... Vou esconder você como tudo que você me escondeu, mas eu vou conseguir.
Sê feliz.

Dá-me asas...

Se  eu tivesse duas asinhas, eu abriria a janela e voaria pra bemmm longe. Veria o céu tão de perto que meus olhos ficariam eternamente com o brilho das estrelas. Sentiria o cheiro da rua como quem aspira por liberdade.
Se eu tivesse duas asinhas, eu deixaria essa chuva me molhar com todas as intensidades que ela pudesse me oferecer. Ouviria o som do vento e cantaria com ele em si maior.
Se eu tivesse duas asinhas, tão longe, mas tããão longe eu estaria.

Boa noite.

É tarde.
A selva de concreto vai se iluminando.
Agora, há mais uma certeza: a noite vai chegar.
Os raios do sol já perderam força... Eles não invadem mais a janela...
A sala foi ficando fria.
Lá longe, vê-se uma lâmpada sendo acesa. Uma mais...
O céu é uma mistura de rosa e azul.
Dá vontade de lembrar das outras tardes...
Dos outros céus coloridos.
Bem devagarzinho, vai anoitecendo...
Não há mais o rosa no céu.
Agora, da janela, é como ver centenas daquelas luzes de natal.
...
Anoiteceu.
E eu fiquei, aqui, esse tempo todo... Só pra ver estrelas.

Redenção.

Os teus olhos vagam e os meus anseiam
por qualquer pouquinho de você.
Não arrisco nenhuma palpite, espero
que os teus olhos encontrem os meus "sem querer".
Tua boca, em silêncio, me convida
a fazer parte do teu paladar.
Não arrisco nenhum palpite, ainda
que os teus olhos encontrem o meu olhar.
Ah, se encontrar...
Eu direi a toda estrela, eu conversarei com o mar...
Juro me render... Ao que finjo na sonhar,
meu bem, me rendo à você.

Chuva reticente.

Quando a chuva cai, colorindo o dia de cinza e a noite de vermelho, a cidade parece adormecer. Tudo clama um travesseiro, um sofá, uma cama... Os poetas se revelam - ou se escondem- em suas folhas amareladas e ansiosas por letrinhas... Os ímpares solicitam companhia. As lembranças correm soltas nas mentes nostálgicas. O frio pede o abraço. Os pedaços são soltos pela casa... Um dia assim, Deus me livre!

Bilhete de loteria # 1

Não foi dessa vez. De tanto insistir, cansei. Escutei todos os discursos por você ensaiados, mas não tenho mais paciência. Quando aquela canção tocar, prometo lembrar de tudo... Na verdade, prometo lembrar do melhor, mas não quero ficar por aqui. As noites ficam cada vez mais escuras e você cada vez mais gago. Entenda, por mais que eu permaneça, você passou. 

Cadência.

É ela.
A vontade de viver-te me conduz.
Ao erro vou contente e me satisfaço com seus olhos vagos, com seus braços curtos.
Sou dela.
Fingir que não ligo não me desconecta de você.
Minhas palavras já tropeçam em qualquer lugar onde teu nome salta.
Lá vem ela...
- de novo-
Só de lembrar-te...

Ação e reação (parte um).

Você não se encontra aqui.
Você não se acha aqui.
Você não reside em mim.
Você despedaça.

Sem remendo.

Ao ouvir tudo aquilo, despedacei.
Como quem parte ao meio... sem chance de remendo.
Querer gritar era inútil.
Querer fugir era sensato, mas logo me encontrariam no meu quarto.
"(...) prezo pela sua sinceridade. Lamento o seu feitio"
Foi a ultima coisa que ousei dizer.
E não ousei mais nada.
Logo estaria presa em minha casca grosseira e nem mesmo ele me tiraria de lá.
Eu queria conseguir ficar presa em mim mesma.
E sufocava pra reprimir a vontade de que ele me prendesse.
Que ele me roubasse.
Mas ele me indagou sobre o futuro e logo estava eu aqui, de novo, no chão.